2º poeminha de páscoa

Pessach: poema, travessia e páscoa

Os olhos dela iluminaram meus 40 desejos, tentações. Minhas sandálias caminharam estrelas.
Os olhos dele morenaram minha pele: 40 desertos de fogo, fagulhas.. O calor dele aqueceu meu corpo de oásis e esmeraldas.
No peito, a inscrição do amor contido, cerzido.
No coração, as trilhas e cofres do represado amor.
Uma janela se abriu. Uma ponte se fez.
Nos lábios, o beijo de muita sede.
. Na boca, o gosto de delícias e o beijo molhado de paixão.
Tâmaras, figos, areia, vinho, tenda e o convite para as bodas.
Pérolas, esmeraldas, sedas, rendas e a dança do ventre no corpo outro.
No horizonte, a promessa da travessia.
Nas nuvens, as dúvidas da travessia.
Vamos? Vamos.
O caminhar de mãos atadas,
O voar de tantos pássaros e asas:
o abraçar de mil abraços:
pessach

Como todo mineiro é um pouco filósofo, há um mistério sobre o qual medito há anos: o que é ser mineiro?
De reflexões e inflexões que extraí sobre a mineirice – muitas delas colhidas de metafísicas inscrições em rótulos de cachaça e quinquilharias de beira de estrada – eis as conclusões a que cheguei:
Mineiro a gente não entende – interpreta.
Mineiro não é contra nem a favor; antes, pelo contrário. Aliás, mineiro não fala, proseia. Toca em desgraça, doença e morte e vive como quem se julga eterno. Chega na estação antes de colocarem os trilhos, para não perder o trem. E, na hora em embarque, grita para a mulher, que carrega a sua mala: “Corre com os trens que a coisa já chegou!”.
Mineiro, quando viaja, leva de tudo, até água para beber. E um coração carregado de saudades.
Relógio de mineiro é enfeite. Pontual para chegar, o mineiro nunca tem hora para sair. A diferença entre o suíço e o mineiro é que o primeiro chega na hora. O mineiro chega antes.
O bom mineiro não laça boi com embira, não dá rasteira em pé de vento, não pisa no escuro, não anda no molhado, só acredita em fumaça quando vê fogo, não estica conversas com estranhos, só arrisca quando tem certeza, e não troca um pássaro na mão por dois voando.
Ser mineiro é sorrir sem mostrar os dentes, ter a esperteza das serpentes e fingir a simplicidade das pombas, fazer de conta que acredita nas autoridades e conspirar contra o governo.
Mineiro foge da luz do sol por suspeitar da própria sombra, vive entre montanhas e sonha com o mar, viaja mundo para comer, do outro lado do planeta, um tutu de feijão com couve picada.
Mineiro sai de Minas sem que Minas saia dele. Fica uma saudade forte, funda, farta e fértil.
Enquanto outros não conseguem, mineiro num dá conta. Nem paquera, espia. Não arruma briga, caça confusão. E mineira não se perfuma, fica cheirosa.
Ser mineiro é venerar o passado como relíquia e falar do futuro como utopia, curtir saudade na cachaça e paixão em serenatas, dormir com um olho fechado e outro aberto, suscitar intrigas com tranquilidade de espírito, acender vela à santa e, por via das dúvidas, não conjurar o diabo.
Mineiro fala de política como se só ele entendesse do assunto, faz oposição sem granjear inimigos, gera filhos para virar compadre de político.
Ser mineiro é fazer a pergunta já sabendo a resposta, ter orgulho de ser humilde, bancar a raposa e ainda insistir em tomar conta do galinheiro.
Cabeça-dura, o mineiro tem o coração mole. Acredita mais no fascínio da simpatia que no poder das idéias. Fala manso para quebrar as resistências do adversário.
Mineiro é isso, sô! Come as sílabas para não morrer pela boca. Faz economia de palavras para não gastar saliva. Fala manso para quebrar as resistências do interlocutor. Sonega letras para economizar palavras. De vossa mercê, passa pra vossemecê, vossência, vosmecê, você, ocê, cê e, num demora muito, usará só o acento circunflexo!
Mineiro fala um dialeto que só outro mineiro entende, como aquele sujeito que, à beira do fogão de lenha, ensinava o outro a fazer café. Fervida a água, o aprendiz indagou: “Pó pô pó?” E o outro respondeu: “Pó pô, pô”.
Ser mineiro é comer goiabada de Ponte Nova, doce de leite de Viçosa, queijo do Serro, requeijão de Teófilo Otoni e linguiça de Formiga, tudo regado a pinga de Salinas.
É cozinhar em fogão de lenha com panela de pedra sabão.
Ser mineiro é acreditar mais no fascínio da simpatia que no poder das idéias. É navegar em montanhas e saber criar bois, filhos e versos.
Praia de mineiro é barzinho e, sua sala de visitas, balcão de armazém e cerca de curral. Ali a língua rola solta na conversa mole, como se o tempo fosse eterno. Certo mesmo é que o momento é terno.
Mineiro vai a enterro para conferir quem continua vivo. Nunca sabe o que dizer aos parentes do falecido, mas fica horas na fila de cumprimentos para marcar presença.
Não manda flores porque desconfia que a flora embolsa a grana e não cumpre o trato.
Mineiro só elogia quando o outro virou defunto. E fala mal de vivo convencido de que está fazendo o bem.
Ser mineiro é esbanjar tolerância para mendigar afeto, proferir definições sem se definir, contar casos sem falar de si próprio, fazer perguntas já sabendo as respostas.
Mineiro é feito pedra preciosa: visto sem atenção não revela o valor que tem, pois esconde o jogo para ganhar a partida e acredita que a fruta do vizinho é sempre mais gostosa.
Pacífico, mineiro dá um boi para não entrar na briga e a boiada para continuar de fora. Mas, se pisam no calo do mineiro, ele conjura, te esconjura, jurado e juramentado no sangue de Tiradentes.
Mineiro é como angu, só fica no ponto quando se mexe com ele.
Em Minas, o juiz é de fora, o mar é de Espanha, os montes são claros, a flor é viçosa, a ponte é nova, o ouro é preto, é belo o horizonte, o pouso é alegre, as dores são de indaiá e os poços de caldas.
“Minas Gerais é muitas”, como disse Guimarães Rosa. É fogão de lenha e comida preparada em panela de pedra sabão; turmalina e esmeralda; tropa de burro e rios indolentes chorando a caminho do mar; sino de igreja e tropeiros mourejando gado sob a tarde incendiada pelo hálito da noite.
Minas é Mantiqueira e serrado, Aleijadinho e Amílcar de Castro, Drummond e Milton Nascimento, pão de queijo e broa de fubá.
Minas é uma mulher de ancas firmes e seios fartos, sensual nas curvas, dócil no trato, barroca no estilo e envolta em brocados, ostentando camafeus.
Minas é saborosamente mágica.
Ave, Minas! Batizada Gerais, és uma terra muito singular.

meu primeiro poeminha de páscoa

PESSACH, PASSAGEM/travessia

ELE quer atravessar o deserto daquele coração ELA o quer sem roteiros ou norte. ELE quer atravessar a aridez daquelas dunas. ELA o quer oásis, palmeiras, brisa, luar. ELE não quer a miragem da paisagem daquele corpo, quer a carta de alforria e a magia do corpo dela ELA o quer tâmara, anis, perfume, licor, sabor ELE a quer nos lances e lençóis de seu tapete mágico ELA o quer sede, seda, senda seiva. ELE é nuvem ELA é névoa. Ele traz as ovelhas ELA, as avelãs. ELE é a linha ELA o novelo.ELE é o maná ELA a sarça. ELE quer a terra prometida daquele coração. ELA é a promessa, passagem, paz, paixão .
ronaldclaver

tempus, temporis

há tempos não frequento este espaço. correria, e-mails, oficinas e outros escreveres me afastam deste diário não tão diário.
estou lendo a menina que contava filmes, vi moby dick, me encantei com o corvo de poe e estou na quarentena, amanhã faz 40 dias que não bebo cerveja e assemelhados. de vez em quando cunho um verso, outras vezes soletro versos dos outros e outros e assim caminha a humanidade. preciso ganhar 100 pratas na loteca para ficar bem no saldo, no sábado e só. nada de carros, casas e outras materialidades.
que tal a curva de um poema sacana para esquentar este tempo chuvoso?

na curva do poema te encontrei. sua boca sensualizava beijo, molhado corpo revelava o mapa dos desejos: bicos, boca, bunda eram naus, ilhas, rios, montanhas e outros relevos e mares. no portal do encontro, rabisquei palavras perigosas e me perdi em seu fogo. preciso dobrar a esquina deste poema e caprichar na caligrafia de seu corpo.

oficinas.

oi, turma, em março, depois do carnaval, começam minhas oficinas de escrita criativa.
seguem os endereços:
OFICINAS DE ESCRITA CRIATIVA
por ronaldclaver

Ministradas em

SAC – Sociedade Amigas da Cultura amigasdacultura@hotmail.com –
Av. Prudente de Moraes, 621/803 – F. 3444667
2ª feira de 15h às 16h30min –

OAP/UFMG
Conservatório de música –
3ª feira de 14h às 15h30min.
F.34098300

OAP – Pampulha/Campus/ área de serviços – 2º piso –
4ª feira mesmo horário do Conservatório – 14h às 15h30min.
oapufmg@terra.com.br
Av. Antônio Carlos, 6627 – F. 34094505

ronaldclaver@yahoo.com.br – ronaldclaver.com
(31) 91 14 80 55

ATENÇÃO: NÃO PENSE DUAS VEZES, TRÊS BASTAM.

boipeba

boipeba é um cantinho do paraíso. há duas praias belíssimas: tassimirim e cueira,sem falaR na boca da barra(FICA NO POVOADO). o acesso às duas primeiras é por barco ou a pé. você passa no meio da mata atlântica e cai no mar. há apenas duas ou três barracas. não há vendedores e pouca gente. coisa de doido bom. não há telefone, carro, música alta, pagode, sertanejo. só a música do mar. quer mais?
pra virar o ano

não prometa nada
não se comprometa com
nada (que não vale a pena)
DEIXA O RIO QUE CORRE
O SEU CORPÓ
O
CHEGAR AO MAR
SÓ FAÇA O QUE O CORAÇÃO
MANDAR

um poema para alegrar esta segunda-feira – poema do encontro:

Poema do encontro
para o nosso encontro vou levar
um vaso de primavera para ninguém chorar
um canteiro de girassóis e algumas estrelas cadentes
um verso safado de gregório e uma cançao de ninar de debussy
um coração em pânico e aos pulos e a uma pedrinha de encantamento
uma paixão desmedida de drummond e os cantares do cântico dos cânticos
e um beijo guardado a sete selos

cachorrona

Eu era a cachorra. Vivíamos qual gato e cachorro. Ele, um vadio, um vira-lata. Chegava em casa tarde da noite levemente bêbado farejando as comidas. A cachorra que era eu, não tinha jeito. Só faltava abanar o rabo. Amava aquele cão de lascívia e deixava sempre pronto um prato de comida para saciar a fome dele.. Uma noite não apareceu. Saí à sua procura. De vez em quando ouço um violão chorando e alguém uivando para a lua, com certeza é o meu cachorrão.

CONVERSA COM AS JANELAS DE JANEIRO

Janus é um deus bifronte. Seus olhos são janelas que se abrem para dentro e para fora.

Ela me olha com olhos oblíquos enquanto vislumbro suas coxas com meus olhos côncavos. Meus dedos passeiam no mapa de seu corpo descobrindo ilhas trilhas e no linho de suas linhas bebo as delícias do Éden caminho no serpentear da serpente sedutora e saboreio as macias maçãs de Lilith. Hilda Hilst acha graça e diz que a loucura não existe é apenas um aperitivo que se bebe na boca do outro. A janela que se fecha pode ser um beijo de desejo uma bela conta bancária uma rosa de solidariedade um túnel sem esquinas e aquela vontade de te possuir em cima da mesa do bar entre garrafas de confidências e pastéis de amor perfeito. A janela que se abre pode ser um jeito de mover o controle remoto de seu coração de dormir sem remorsos em seus pesadelos de ouvir Bach e sonhar nuvens de confessar que nunca leu nem entendeu Ulisses, de trafegar um túnel sem dentadura e de avançar o sinal vermelho de sua lascívia. Gregório de Matos acha graça nisto tudo e diz que o amor dos poetas carece de pegadas e trombadas e que há muitos adjetivos e metáforas propõe as do dobras do corpo na cama de sol e sal e as acrobacias do Sutra. Uma janela se fecha para dentro da memória em dissipação e outra mergulha na possível realidade.
Ronaldclaver

Ezequiel e Rosa estão no quarto de pensão em Pirapora, às margens do rio São Francisco. Rosa tira o vestido estampado e a anágua. Fica de sutiã e meias soquetes. A pedido de Ezequiel canta Rosa de Pixinguinha: tu és divina e graciosa. Ezequiel de camisa, cueca samba canção e gravata começa a tirar a botina. Tu és divina e graciosa diz para Rosa. Limpa a garganta e espera a sua vez de entrar em cena. Ezequiel ataca de El Sole Mio com todos os sustenidos e bemóis. Rosa tira a meia e se contorce sozinha na cama. Ávida de fogo cavalga o lençol e tenta enlaçar o amor que canta e se esquiva ao lado. Ezequiel enrola-se na gravata, apaga a luz, desliga o canto, reza para a virgem e, como um cego, tateia as pétalas da divina rosa. ronaldclaver

rosa e ezequiel

Ezequiel e Rosa estão no quarto de pensão em Pirapora, às margens do rio São Francisco. Rosa tira o vestido estampado e a anágua. Fica de sutiã e meias soquetes. A pedido de Ezequiel canta Rosa de Pixinguinha: tu és divina e graciosa. Ezequiel de camisa, cueca samba canção e gravata começa a tirar a botina. Tu és divina e graciosa diz para Rosa. Limpa a garganta e espera a sua vez de entrar em cena. Ezequiel ataca de El Sole Mio com todos os sustenidos e bemóis. Rosa tira a meia e se contorce sozinha na cama. Ávida de fogo cavalga o lençol e tenta enlaçar o amor que canta e se esquiva ao lado. Ezequiel enrola-se na gravata, apaga a luz, desliga o canto, reza para a virgem e, como um cego, tateia as pétalas da divina rosa. ronaldclaver